TRAGEDIA NO MAR

Pelo menos 60 rohingyas morreram ou sumiram no mar ao tentar chegar em Bangladeshdiz ONU



Além das mortes causadas pelos naufrágios, a Cruz Vermelha alerta para o risco de uma epidemia de cólera no campo de refugiados, onde centenas de pessoas chegam a dividir um único banheiro.


Ao menos 60 rohingyas de Mianmar que tentavam se unir aos 500.000 refugiados no vizinho Bangladesh morreram ou desapareceram no mar, informou nesta sexta-feira (29) a ONU, que denuncia um "pesadelo humanitário" em um dos maiores campos de refugiados do mundo.
"Minha mulher e meus dois filhos sobreviveram. Mas perdi minhas três filhas", afirmou, sem conter as lágrimas, Shona Miah, um rohingya de 32 anos que esperava salvar a família dos confrontos violentos iniciados há um mês entre o exército birmanês e os rebeldes muçulmanos rohingyas.
À medida que são encontrados, os corpos das vítimas são colocados no chão de uma escola perto da praia em Cox's Bazar.


Refugiado Rohingya chora em frente ao corpo de seus três filhos em uma escola perto da praia de Inani (Foto: Fred Dufour/AFP)
"Há 23 mortes confirmadas [...] Quarenta pessoas estão desaparecidas e supostamente afogadas", declarou o porta-voz da Organização Internacional para Migrações (OIM), Joel Millman.
A embarcação partiu na quarta (27) à noite de uma localidade costeira do estado birmanês de Rakhine, epicentro dos confrontos entre o exército e os rebeldes muçulmanos rohingyas. De acordo com testemunhas, a embarcação naufragou perto da terra firme em consequência das chuvas torrenciais e dos ventos no golfo de Bengala.
O drama recorda que os rohingyas, uma minoria apátrida de um milhão de pessoas instalada em Mianmar, continuam fugindo para Bangladesh, apesar das promessas do governo birmanês sobre o fim da violência.
Mas até que aconteça o hipotético retorno, nos campos de refugiados de Bangladesh as autoridades e as ONGs não têm condições de administrar o fluxo.
Mulher carrega corpo de criança que morreu durante a travessia entre Mianmar e Bangladesh (Foto: Fred Dufour/AFP)


A polícia bengalesa anunciou nesta sexta que impediu a passagem de mais de 20 mil pela fronteira.
A Cruz Vermelha denunciou os riscos sanitários e de epidemias, com milhares de casos de diarreia aguda provocados pelas desastrosas condições de higiene.

Vacinas contra cólera

A organização informou que alguns campos contam com apenas um banheiro para centenas de pessoas, o que provoca o acúmulo de fezes.
Um lote de 900 mil doses de vacina contra a cólera está sendo transportado para os campos, onde as ONGs temem uma epidemia.
A Cruz Vermelha calcula em 3,6 milhões de litros por dia as necessidades de água para as 500.000 pessoas que estão nos campos .
Para complicar ainda mais o cenário, os refugiados procedem de uma das regiões mais pobres de Mianmar e chegam a Bangladesh em estado de grande fragilidade física: um em cada cinco sofrem desnutrição severa, indicou a agência para os refugiados da ONU.
 Refugiado de Bangladesh chora em frente ao corpo do filho morto (Foto: Fred Dufour/AFP)


O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pediu na quinta-feira (28) a Mianmar o fim das operações militares no oeste do país e denunciou um "pesadelo humanitário".
Mas, além das habituais condenações à violência e dos pedidos pelo fim dos combates, a China, com o apoio da Rússia, rejeita qualquer interferência nos assuntos internos birmaneses.
A China é o principal apoio de Mianmar, onde tem importantes interesses econômicos, sobretudo na região oeste.
E é justamente nesta região em que o exército birmanês executa uma campanha de repressão desde os ataques dos rebeldes rohingyas em 25 de agosto.
Os rohingyas, a maior população apátrida do mundo, são considerados estrangeiros em Mianmar, um país com mais de 90% da população budista.
A ONU considera que o exército birmanês e as milícias budistas estão cometendo uma limpeza étnica contra esta comunidade em Rakhine.

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